Como é estabelecida a hierarquização dos rios? O que define qual curso d’água é o principal e quais são os afluentes e tributários que nele deságuam?
No caso particular dos rios São Francisco e Samburá, os próprios pescadores da região reconhecem a olhos vistos qual rio é o mais robusto: antes da confluência entre os dois, o Velho Chico é conhecido por eles por rio São Francisquinho. Em 2002, a ciência chancelou essa percepção. Tomando como referência os valores de extensão, tamanho da bacia hidrográfica e características na confluência (largura, vazão e, finalmente, cota do fundo/talvegue), um estudo da Companhia de Desenvolvimento dos Vales do São Francisco e do Parnaíba (Codevasf) apontou que o São Francisco é afluente do rio Samburá e não o contrário. O Samburá percorre precisamente 49 km a mais que o São Francisco até chegar ao Cânion do São Leão, local da confluência dos dois rios. Segundo o estudo, o ponto está a 147 km da nascente do Samburá e a 98 km da nascente do Velho Chico. Ali, a vazão do Samburá é três vezes maior que a do São Francisco — 16,6 m³/s no primeiro, ante 5,3 m³/s no segundo. A Bacia Hidrográfica do Rio Samburá também possui maior área geográfica que a do São Francisco, a montante da confluência de ambos. São 1.770 km² do Samburá e 790,7 km² do Velho Chico.
Um dos responsáveis por esta revelação foi Geraldo Gentil Vieira, engenheiro agrônomo. Foi em 2001 que a história de Geraldo Gentil e a então hipótese da nascente geográfica do São Francisco se cruzaram. À época, ele coordenava a Expedição Américo Vespúcio, que percorreu toda extensão do rio em 35 dias, com o objetivo de realizar um diagnóstico itinerante de todo o Velho Chico.
Foi nessa expedição que a percepção dos pescadores da região chamou a atenção de Gentil para o fato de que o rio São Francisco possivelmente era o afluente do Samburá. Um ano depois, Geraldo conduziu, pela Codevasf, o estudo Determinação da extensão do rio São Francisco, em conjunto com os colegas Paulo Afonso Silva, Miguel Farinasso e Rosemery José Carlos. Valendo-se de imagens de satélite, cartografia adequada e visita às nascentes, utilizando poderosas ferramentas de geoprocessamento, o estudo atestou a inversão da relação natural rio principal e afluente entre o São Francisco e o Samburá.